Reflexões Sobre a Jantelagen - "Lei de Jante" - Escandinávia
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Reunindo dois fatos presentes na minha linha do tempo e de percepção quanto ao nosso viver no Planeta Terra, me senti motivado a escrever um pouco a respeito do tema presente no título, pois, apesar de não ter conhecimento do termo em si ("Jantelagen"), os acontecimentos que estão armazenados na memória me permitiram analisar rapidamente o quanto realmente a palavra e os conceitos por trás dela fazem todo o sentido.
Primeiramente, é importante enumerar estas vivências presentes em minha vida (são duas), parte do contexto deste artigo: o fato de ter tido o privilégio de visitar a Escandinávia (mais precisamente a Dinamarca e a Suécia) no final da década de 1990, e acompanhar alguns traços de comportamento do jogador Erling Haaland, da seleção norueguesa de futebol, durante esta última Copa do Mundo (2026). Basicamente porque pude tomar contato com uma forma de comportamento característica dos escandinavos, a qual não sabia que era identificada por alguma denominação ou lei: a humildade, a indulgência.
De fato, mesmo nos idos da década de 1990 para 2000 (foi nesta ocasião que pude ter o privilégio de desbravar terras europeias), pude constatar a calmaria, urbanidade e senso de organização de Copenhagen, capital dinamarquesa. Já ali por exemplo, havia uma divisão clara entre os espaços para o tráfego de veículos e o tráfego de bicicletas, sem conflitos, rixas ou invasões constantes de ambas partes.
Lá eu participei, mesmo sem entender bem do que se tratava, de um ritual chamado konfirmation, que consiste em uma reunião familiar, envolvendo adultos e adolescentes, com o objetivo de oficializar um rito de passagem destes últimos à idade adulta. Nela, as vestimentas são de caráter formal (terno e gravata para os homens, por exemplo) e é comum, justamente para marcar este rito de passagem e oficializá-lo, que os adolescentes envolvidos recebam presentes de alto valor. Também é cantado o hino Nacional, são declamados poemas e textos falando a respeito da ocasião e assim como em outros locais do país, há uma ênfase no uso da bandeira em vários ambientes, até mesmo nos impressos da festa.
O relato do acontecimento acima, típico da cultura nórdica, é claro que pode suscitar em algumas pessoas a opinião de que é um rito "precipitado" em função da idade dos protagonistas (muitas vezes os adolescentes têm 14 ou 15 anos), mas pode também simbolizar uma maneira séria, austera e culturalmente habituada de seguir valores e não se deixar seduzir por algumas vaidades ou decisões extremamente individualistas de como se viver em sociedade, sem considerá-la como um elemento formador da sua personalidade e caráter ou que merece seu apreço.
O Jantelagen fala disso, porque especifica uma regra de etiqueta sob a qual busca-se minimizar a possibilidade de conflitos, de contendas por comparação fomentada especialmente à condição social das pessoas. Em suma, apregoa-se uma igualdade em termos de princípio de vida de não ostentar aquilo que se aufere e de não ser exageradamente chamativo nos atos e trejeitos derivados de uma vida por exemplo, de riqueza.
Ele norteia-se por uma série de princípios que listo logo abaixo:
1. Não pense que você é especial.
2. Não pense que você está no mesmo nível que nós.
3. Não pense que você é mais inteligente do que nós.
4. Não imagine que você é melhor do que nós.
5. Não pense que você sabe mais do que nós.
6. Não pense que você é mais importante do que nós.
7. Não pense que você é bom em alguma coisa.
8. Não rir de nós.
9. Não pense que alguém se importa com você.
10. Não pense que você pode nos ensinar alguma coisa.
Eu, para poder comentar as impressões, vou colocar mais um exemplo favorável ao conceito, mas posteriormente aumentar o leque de opiniões, tecendo algumas críticas (e vocês entenderão a razão, pela leitura)...
Há algum tempo assisti uma reportagem curiosa sobre como vivem os vereadores de Estocolmo, a capital da Suecia, para efeito de comparação com os nossos legisladores locais. Basicamente, a maior parte deles não faz da vereança uma "profissão" propriamente dita, até porque eles têm outras formações que fazem com que estejam direcionados a outros cargos. À primeira vista, ok, pois aqui nós temos muitos políticos com histórico de profissões como advocacia, engenharia e assim as exercem...
Mas o diferencial é como se encara a responsabilidade do cargo... e como os ritos oficiais são diferentes. Senão vejamos:
1. A vereança é considerada um "trabalho voluntário" e a remuneração dá-se pelo pagamento de uma ajuda de custo para o comparecimento às sessões.
2. Não há secretárias, assessores particulares ou carros com motorista.
3. Por conseguinte, eles utilizam transporte público normalmente para comparecerem ao parlamento.
Aqui eu vejo um lado positivo do conceito da Lei de Jante... o fato de sermos políticos por um tempo, denota que estamos servindo à população e não nos servindo dela.
Mas agora vamos analisar por outro prisma e neste caso eu me sirvo destes dois últimos postulados para comentar:
1. Não pense que alguém se importa com você.
2. Não pense que você pode nos ensinar alguma coisa.
Eu não me aprofundei em pesquisas, não fiz uma exploração mais densa sobre a Lei de Jante, mas se fomos tomar uma interpretação literal do significado das frases, acredito que elas descrevem um certo equívoco, porque se formos pensar em conceitos como pertencimento e enraizamento, como seria factível imaginar que ninguém se importa com o seu semelhante? E para além: se isso não pode ser aplicado a outra pessoa que você conhece, não criaria um conflito com o modo de vida em coletividade, que norteia até mesmo os países nórdicos? Fica uma reflexão...
De qualquer maneira, retornando ao lado bom da análise, é imperativo ao Brasil repensar (e estamos com o período eleitoral em aberto) quando ao seu papel crítico em relação aos nossos legisladores pois muitos aspectos ligados à ética, cidadania e qualidade de vida passa por decisões que eles conduzem. E há pequenas coisas em nosso dia-a-dia que concorrem para que sejamos mais cidadãos e ajamos com mais urbanidade e respeito, caminho este que pode nos levar a uma sociedade melhor:
1. Não jogar papeis e outros resíduos na rua.
2. Moderarmos nosso comportamento no transporte público (exemplo: usar fones de ouvido).
3. Sermos solidários, não fazendo chacota de pessoas em vulnerabilidade.
4. Pensarmos em desenvolver efetivamente ações solidárias (exemplo: doar sangue, visitar pessoas idosas em casas de repouso).
Dentre outras ações possíveis. Sei que, ao lermos os 10 postulados, o próprio advérbio de negação ("não") nos parece mostrar de uma forma total, apenas citações "radicais", mas conforme a maneira que as absorvemos e utilizamos em nossa formação cidadã, vamos constatar que o benefício supera eventuais pareceres totalmente desfavoráveis.
E você? Que acha do conceito da Lei de Jante? Comente! Participe!
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