O "Até Quando" Sob o Exemplo de Dois Acontecimentos...

Dois momentos totalmente sem relação direta entre si, mas, pelo contexto da história, têm uma relação muito mais direta que poderíamos imaginar. Durante esta breve reflexão todos nós entenderemos melhor esta interdependência... a saber...

Fato 1: partida de futebol entre 2 clubes da Itália, mais precisamente da Serie B (segunda divisão), Reggiana x Sudtirol. Aos 65 minutos da contenda, quando o placar acusava 1 x 0 para a Sudtirol, a bola foi recuada para o goleiro Alessio Cragno, desta equipe. O lance parecia normal, com o arqueiro fora da grande área, preparando-se para iniciar uma jogada. Porém, em dado momento, ele começou a caminhar com certa leniência, o que a princípio deixou a bola disponível para o atleta adversário (do Reggiana). Mas houve a percepção imediata do motivo pelo qual a bola foi perdida: uma contusão grave ali surgia. 

O atacante Tommaso Fumagalli não teve dúvidas. Em um esperado, mas ao mesmo tempo (poderia ser avaliado assim!) surpreendente gesto de "fair play", ao invés de dirigir-se ao gol adversário, correu à lateral e colocou a bola para fora, permitindo assim o atendimento imediato do goleiro. Ou seja: apesar de prescindir de uma vantagem inquestionável de sua equipe, fez o que era certo. 


Este é o jogador da Reggiana, Tommaso Fumagalli.


Fato 2 (que poderíamos denominar como anticlíimax): no Rio de Janeiro, uma turista argentina foi vítima do golpe do "milho". Ao pedir esta iguaria para um vendedor ambulante, ao invés de cobrá-la pelo preço que seria justo, transferiu para sua conta, a importância de R$ 20.000,00. O valor correto seria na realidade, R$ 20,00. 

O nome da turista é Maria Cristina Gómes Aguillar e segundo ela, como não fala português, pediu ajuda ao vendedor ambulante para digitar o valor na máquina de pagamento. 


Ao terminar a transação, ele informou a turista que a operação estava pronta. Posteriormente, acessando sua conta no meio de pagamento Mercado Pago, acabou constatando o débito indevido, quantia que havia economizado e representava praticamente o seu montante total disponível.


Pois bem: qual a relação direta que estes fatos da vida têm? 

A régua moral em relação ao modo de agir perante vulnerabilidades de outras pessoas. 

Enquanto alguns demonstram empatia e compreensão, prescindindo até mesmo da sua flagrante vantagem, outros desconsideram o sentimento em relação ao próximo, a perspectiva de construir uma sociedade mais justa, equilibrada e dotada de cada vez mais exemplos de bondade e altruísmo. 

O que vale, neste segundo caso, é "levar vantagem em tudo". É saber que o "louro da vitória" consiste em poder olhar para quem foi vitimado e dizer: "perdeu, mané". Esse infelizmente acaba sendo um microcosmo, dentro de um conjunto de situações ultimamente vividas dentro de nosso país, cujos agentes aparentam ter uma quase certeza da impunidade e parecem estar revestidos de uma espécie de "capa" de uma maldade intrínseca e contínua. 

Com isso, nós nos questionamos das razões destes acontecimentos e uma pergunta frequentemente é aplicada como um símbolo de indignação perante isso: "até quando". A meu ver a resposta possível pode ser dividida em alguns pontos de análise.

a. A natureza do ser humano: sob esta ótica, o "até quando" infelizmente será eterno. Em qualquer parte do mundo, mesmo em locais onde a justiça, a estabilidade social e outras instituições funcionam em sintonia com o que se espera em termos de cidadania, haverá indivíduos que carregarão dentro de si, uma personalidade voltada ao mal. A educação do lar e da escola também não despertarão uma necessidade de autocrítica, tampouco reverterão em virtudes para estas pessoas. 

b. A legislação vigente: a repetição de determinados crimes e o seu conseqüente aumento e nível de crueldade, também faz com que a expressão "até quando" não nos dê uma pespectiva de resposta favorável. Para tanto, uma alteração do nosso Código Penal, datado da década de 1940, seria um cenário ideal, especialmente no que diz respeito a crimes hediondos. E como um fio de esperança, recentemente foi aprovadoi no Senado Federal o Projeto de Lei 3780. Ele altera o Código Penal para aumentar as penas desses crimes e incluir novos crimes ou qualificações, como o furto e receptação de animais domésticos e o roubo de arma de fogo. 

c. Falta de noção ampla de cidadania: para muitos, a interpretação de cidadania anda ou muito distante da realidade ou trata-se de um conceito no qual por exemplo a "libertinagem" é aceita. Exemplo claro disso: muitos "estudantes" consideram-se acima do bem e do mal ao questionar a autoridade e a conduta dos professores, mas proferem reclamações mil se têm que varrer a sua sala de aula após o turno de estudos, coisa que em outros lugares do mundo é encarada de outra forma...


Aqui...


Este sentido não trata-se de "explorar" alunos ou desmerecer por exemplo, o trabalho da equipe de limpeza, mas sim incutir nos discentes que conservar, manter, dar zelo, organizar, faz parte também da grade curricular que propõe formar não apenas alunos, mas também cidadãos. Ademais, mostrar a importância de que o espaço físico (a escola) é tão importante quanto a educação que ela e os professores apresentam. 

Sendo assim, o "Até Quando" terá um tempo de duração... indeterminado. Isso por conta da extrema multiplicidade de facetas apresentadas pelo ser humano. Mesmo na hipótese do enrijecimento das leis, das punições mais severas, das métricas de cidadania e da edução no lar, haverá pessoas infelizmente, que praticarão o mal com gosto, com ou sem a égide de uma proteção ou incentivo por trás delas. Enquanto o mundo for mundo, é assim que a roda girará.

Até a próxima postagem pessoal.

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